FACULDADES COMUNITÁRIAS DOS ESTADOS UNIDOS:
EM ASCENSÃO
Arthur M. Cohen
Através do espectro que é a educação superior nos Estados Unidos, o sistema
de faculdades comunitárias é comparativamente recente; essencialmente, um fenômeno que
surgiu, desenvolveu-se e expandiu-se ao longo do último século.
De início, esse programa de dois anos destinava-se a acomodar o crescente
número de formandos de escolas secundárias que buscavam ampliar sua educação mas, por
uma razão ou outra (tempo, dinheiro, obrigações familiares ou capacidade), não puderam
inscrever-se em uma faculdade ou universidade padrão de quatro anos.
Desde aqueles primeiros anos, as faculdades comunitárias expandiram seu papel
para além dos dois anos de estudo pré-bacharelado. Atualmente, elas preparam as pessoas
para o trabalho e oferecem uma série de serviços às comunidades locais. Elas ajudam as
pessoas a crescerem dentro de suas carreiras. Além disso, elas oferecem instruções
básicas de alfabetização a pessoas que deixaram de aprender por completo técnicas
rudimentares de educação primária e secundária, bem como para imigrantes
recém-chegados aos Estados Unidos. Por fim, elas mantêm cursos para o interesse pessoal
de adultos, fomentando o espírito do aprendizado vitalício.
De fato, o princípio geral que rege o desenvolvimento das faculdades
comunitárias tem sido a crença na mobilidade e sucesso individual; a crença de que
qualquer pessoa que a busque deve receber a oportunidade de aprender a fim de avançar
pessoal ou profissionalmente na sociedade, independentemente das suas conquistas
educacionais anteriores ou da sua posição social ou econômica. Como as faculdades
comunitárias impõem poucas barreiras ao ingresso de estudantes e como suas mensalidades
são mais baixas que as de faculdades e universidades de quatro anos, elas oferecem livre
acesso, oportunidade facilmente disponível para que todos encontrem algo de valor.
Por definição, a faculdade comunitária é uma instituição autorizada a
conceder grau associado como seu mais alto diploma. Tipicamente concedido após dois anos
de instrução em nível de faculdade, ele qualifica o formando a entrar em uma
universidade em nível júnior, ou terceiro ano, ou a entrar no mercado de trabalho como
funcionário qualificado em numerosos campos ocupacionais e paraprofissionais. Atualmente,
existem 1.075 faculdades comunitárias nos Estados Unidos, com 5,5 milhões de estudantes
inscritos buscando o diploma.
Seu mérito foi comprovado de muitas formas, como na maneira em que acomodaram
aumentos periódicos do número de jovens que buscam ingressar na faculdade. Em 1979, por
exemplo, havia 4,3 milhões de jovens de 17 anos de idade nos Estados Unidos, aumento de
50% em quinze anos. Mais de 70% desses jovens de 17 anos de idade haviam se formado na
escola secundária e quase a metade tentava entrar na faculdade. Isso impõe enorme
pressão sobre as admissões para faculdades, que as universidades não estavam preparadas
para acomodar, mas que as faculdades comunitárias puderam absorver e, de fato,
fizeram-no. Em 2000, cerca de metade dos que iniciaram a faculdade pela primeira vez o
fizeram em faculdades comunitárias.
Invariavelmente, os estudantes de faculdades comunitárias possuem diversos
objetivos. Um terço deles busca conhecimentos e diplomas que os qualifiquem para
empregos. Cerca de 20% desejam aprimorar-se em empregos que já possuem e 10% estão
comparecendo estritamente por seu interesse geral pessoal. Outro terço deseja ganhar
créditos que seriam transferidos para uma escola de quatro anos, rumo ao grau de
bacharelado.
Isso é significativo: poucos sistemas educacionais em todo o mundo permitem que
os estudantes transfiram créditos facilmente de uma instituição para outra. Também em
outros lugares, as funções desempenhadas pelas faculdades comunitárias norte-americanas
são divididas entre diferentes tipos de instituições. O Japão, por exemplo, possui
faculdades júnior, escolas de treinamento especial e faculdades técnicas separadas nas
suas ofertas pós-secundaristas. Somente as faculdades comunitárias norte-americanas
fornecem educação pré-bacharelado, treinamento vocacional a curto prazo, educação de
adultos, início de trabalho e aprimoramento profissional em tecnologia, profissões
médicas e outras ocupações sob um único teto.
Essa mistura de propósitos fez gerar uma instituição abrangente, em que dois
terços dos estudantes comparecem em meio período. Poucas dessas faculdades possuem
residências para estudantes; a maioria dos estudantes comuta-se, inscreve-se em um ou
dois cursos e depois retorna aos seus empregos ou outras atividades. A idade média no
campus é de 25 anos; em vários Estados (Arizona, Califórnia, Washington e Wyoming), 8%
ou mais da população com 18 anos de idade ou mais estão inscritos.
Muito mais de meio milhão de graduações associadas são concedidas anualmente
por faculdades comunitárias, um terço das quais para artes liberais ou estudos gerais. A
maioria dos graduados pretende matricular-se em instituições sênior. O restante vai
para estudantes em campos ocupacionais, um quarto dos quais nas profissões médicas
(enfermagem, odontologia, treinamento de técnicos de laboratórios médicos e campos
relacionados). As profissões comerciais (incluindo secretariado, administração de
empresas, contabilidade e administração de pequenas empresas) representam outros 25% das
graduações associadas concedidas. Todos os anos, as faculdades comunitárias também
concedem diplomas para programas de menos de dois anos a mais de cem mil estudantes que
completam programas de curto prazo em serviços de proteção ou reparo, transporte,
ciências da informação ou computação, comércio de produção de precisão e
licenciamento de construção ou imóveis. Mais da metade das faculdades oferece
treinamento de inglês como Segundo Idioma (ESL) para imigrantes recém-chegados.
A maior parte dos instrutores ou professores de faculdades comunitárias
considera o mestrado sua mais alta conquista. Dois terços das faculdades ensinam apenas
uma ou duas classes por período. A maior parte dos professores em meio período são
recém-formados de faculdades que buscam cargos de ensino em período integral, pessoas
com emprego regular em outro local ou aposentados que desejam manter vínculo com a
educação. As faculdades comunitárias são financiadas através de uma combinação de
fontes, que incluem o Estado (44%), apropriações locais (menos de 20%) e mensalidades
dos estudantes (21%), com a maior parte do restante vindo do governo dos Estados Unidos e
empresas auxiliares.
Como as faculdades comunitárias nunca receberam doações consideráveis de
alunos ou de fundações filantrópicas, elas têm como regra patrimônios pequenos.
Conseqüentemente, elas vêm buscando outras formas de receita suplementar. A maioria
delas criou fundações universitárias e incentiva campanhas para arrecadar fundos de
empresas e indivíduos de suas comunidades locais. Mas elas ainda estão por gerar mais
que minúsculas proporções da receita de que necessitam. As faculdades arrecadaram
alguns fundos através de vendas e serviços, particularmente alugando suas instalações
para utilização por grupos locais durante horários de intervalo. Algumas alugaram
terrenos a longo prazo para incorporadores, para a construção de instalações de
moradia assistida ou "shopping centers".
Uma fonte de financiamento alternativa e lucrativa vem sendo o treinamento
contratado com agências públicas e indústrias. Através desses acordos, as faculdades
fornecem pessoal e instalações para treinar a polícia local, bombeiros e servidores
municipais e regionais. Ou eles podem contratar o treinamento de funcionários de
indústrias locais sobre as últimas técnicas do local de trabalho; as sessões de
treinamento são realizadas no campus ou nas próprias instalações das indústrias.
Posicionadas como estão entre a escola secundária e a educação de
bacharelado, as faculdades comunitárias desenvolveram tarefas de colaboração com
instituições de ambos os lados. Elas tentam suavizar o caminho rumo ao aprendizado
superior para formandos de escola secundária que não dispõem dos fundos ou
conhecimentos necessários. Elas o fazem mesclando seus programas com os de universidades,
de forma que os estudantes que cursem as faculdades comunitárias possam transferir
créditos sem nenhuma perda e ajudando a assegurar que os cursos da escola secundária
prepararão os estudantes para a faculdade. As faculdades comunitárias também colaboram
com serviços de saúde pública, oferecendo "feiras de saúde" e outras
atividades destinadas a ajudar as pessoas a terem acesso à assistência médica. Além
disso, as instituições de dois anos treinam tutores para trabalharem nas escolas
elementares e ajudam os estudantes a aprenderem leitura básica, escrita e aritmética. E
elas ajudam as agências de assistência social da comunidade, fornecendo o treinamento
mais básico em tratamento e técnicas de emprego para os desempregados crônicos.
As provas do sucesso desses esforços são abundantes, desde as taxas em que os
alunos de faculdades de dois anos obtêm empregos ou são aprovados em exames de
licenciamento até as taxas de transferência para faculdades de quatro anos. Quase todos
os alunos que se formam com graduação ou diploma nas profissões médicas conseguem
emprego. Os alunos que necessitam realizar exames de licenciamento estadual em campos como
enfermagem, odontologia e terapia de respiração são aprovados nesses testes em índices
significativamente mais altos que os estudantes que vieram de escolas particulares ou
comerciais. Os estudantes de faculdades comunitárias que se transferem para
instituições de quatro anos atingem graus de bacharelado iguais aos estudantes que se
iniciaram nessas instituições como novatos.
Existem resultados menos mensuráveis com precisão: o grau de elevação dos
padrões de vida da comunidade devido às atividades de assistência social e saúde das
faculdades comunitárias; a maneira como os imigrantes se integram à sociedade através
de treinamento de idioma e aculturação obtida nas faculdades comunitárias; os meios
pelos quais os formados em faculdades comunitárias tornam-se empresários através dos
cursos de direito comercial, contabilidade de pequenas empresas e relações trabalhistas
que freqüentaram; e a assistência oferecida pelas faculdades comunitárias à economia
local, em conjunto com as agências estatais de desenvolvimento econômico, oferecendo-se
para treinar os trabalhadores de forma a atrair a indústria.
A maior parte das faculdades está relacionada inexoravelmente à educação
internacional. Elas inscrevem estudantes estrangeiros, financiam programas de estudo no
exterior para estudantes norte-americanos e conduzem visitas de estudo para o exterior.
Algumas mantêm centros comerciais internacionais, programas de treinamento para empresas
locais que desejam dedicar-se ao comércio internacional ou contratam treinamento com
empresas sediadas em outros países.
De forma geral, os Estados Unidos lucram imensamente com a flexibilidade
embutida no sistema de faculdades comunitárias, que atende a condições variáveis como
a expansão e contração demográfica. Atualmente, quando 85 a 90% dos que entram em
faculdades de quatro anos têm 19 anos ou menos, apenas 61% de estudantes em faculdades
comunitários encontram-se nessa faixa etária.
Por isso, as faculdades comunitárias também estão se adaptando às
necessidades em mutação do mercado de trabalho. Durante a primeira metade do século XX,
quando um ano ou dois de faculdade eram preparação suficiente para ensinar estudantes de
escolas primárias, as instituições de dois anos estavam ativamente envolvidas no
treinamento de professores. Na era pós-Segunda Guerra Mundial, entretanto, quando se
esperava que potenciais professores tivessem bacharelado de quatro anos e até mestrado em
educação, os programas de treinamento de professores das faculdades comunitárias foram
dissolvidos. Ainda recentemente, em reação à falta geral de professores nos Estados
Unidos, muitas faculdades comunitárias reestabeleceram programas de capacitação de
professores; desta vez, entretanto, em cooperação com instituições vizinhas que
concedem bacharelado de quatro anos. Nesses casos, as faculdades comunitárias fornecem os
dois primeiros anos do curso completo.
As faculdades comunitárias também são ativas nas profissões médicas. Elas
treinam parte significativa de enfermeiras vocacionais licenciadas, técnicos de raio X,
mantenedores de registros médicos e outros profissionais de apoio. Também preparam
estudantes para emprego como guardas de segurança, vigilantes de réus e outros cargos em
prisões. As faculdades de dois anos também reagem às necessidades do mercado de
trabalho para um local específico. Uma faculdade em área turística poderá ter
programas de administração de hotéis e restaurantes e arte culinária. E, ao final, ao
longo do espectro de suas atividades, as faculdades comunitárias são parte dos esforços
nacionais dos Estados Unidos para retirar as pessoas da previdência social para o
trabalho.
À medida que chega o século XXI, as faculdades comunitárias enfrentam uma
série de desafios e questões sem resposta.
Primeiramente, existe a crescente necessidade de que essas escolas criem
operações permanentes. A população norte-americana com 18 anos de idade cresceu
drasticamente e continuará a crescer; de 3,3 milhões em 1993 para 4,3 milhões previstos
no final desta década. Dois anos atrás, 64% dos estudantes secundaristas formados
entraram na faculdade. É improvável que as classes de novatos das universidades
expandam-se de forma a atender à crescente demanda de colocação. E, apesar das
sugestões de diversas partes de que a educação à distância economizará dinheiro e
tornará a expansão de campus menos necessária, a educação à distância ainda não
tomou seu lugar universalmente. Como resultado, as faculdades comunitárias necessitarão
maximizar a utilização de suas instalações e podem, de fato, tornar-se mais uma força
a enfatizar e utilizar também a educação à distância.
Existem outros desafios, tais como encontrar novas e criativas fontes de
financiamento em uma época em que as universidades de quatro anos estão expandindo seus
patrimônios exponencialmente e quando muitas ofertas novas estão à volta em busca de
preciosos recursos locais e estaduais. E também, mais freqüentemente, as agências
estatais e instituições de graduação estão buscando provas adicionais do valor geral
das faculdades comunitárias, em termos de alguns dos detalhes observados acima, tais como
grau de transferência de estudantes para escolas de quatro anos e resultados de exames de
licenciamento e outros testes.
Ao mesmo tempo, uma das questões que surgem é se as faculdades comunitárias
deverão ser autorizadas a oferecer bacharelado. Durante o período de rápida expansão
nos anos 1950 e 1960, muitas faculdades de dois anos começaram a oferecer bacharelado e,
portanto, uniram-se às fileiras das instituições sênior. Essa mudança cessou, mas
agora, voltou a ser uma questão importante. Diversos Estados autorizaram as faculdades
comunitárias a iniciarem treinamento de bacharelado em certas áreas. O que provavelmente
resultará, entretanto, é a colaboração entre as escolas de dois anos e de quatro anos,
com estas últimas fornecendo cursos de divisões superiores nos campi de faculdades
comunitárias.
Através da sua expansão lateral de currículo e joint ventures com agências
comunitárias, a faculdade de dois anos expandiu seu papel de fornecer meramente
educação pré-bacharelado. Ao manterem admissões abertas para todos os que desejassem
entrar, elas se tornaram os pulmões do sistema de educação superior, expandindo-se
quando cresce o número de estudantes que buscam estudo pós-secundário e reduzindo as
inscrições de jovens quando os números declinam.
Com tudo isso, a faculdade comunitária manteve papel exclusivo como componente
vital da educação pós-secundarista nos Estados Unidos. E este papel está agora em
ascensão.
Arthur M. Cohen é professor de Educação Superior da Universidade
da Califórnia em Los Angeles e diretor do Centro de Informações sobre Recursos
Educacionais (ERIC) para Faculdades Comunitárias da UCLA. Ele é co-autor, com F. B.
Brawer, de The American Community College (A Faculdade Comunitária
Norte-Americana).
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